segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
A quem andar no IP2 entre Beja e Castro Verde por volta da hora do almoço:
domingo, 15 de Novembro de 2009
sábado, 14 de Novembro de 2009
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
O Diabo à solta nas margens do Nango
Porque é que naquele momento eu desisti de fazer uma coisa e fiz outra? O que comanda as nossas vidas? O que é que nos faz tomar uma decisão súbita num determinado segundo? O destino? O simples acaso?
O que me fez, naquele dia tórrido de 1973, decidir repentinamente não subir para a pesada Berliet atascada nas margens do rio Nango? A verdade é que cheguei a colocar a espingarda sobre a caixa e a pôr um pé na roda para subir. Lá em cima, o Gil, impante como de costume ao sol do meio-dia, mãos nas ancas, chamava-me: "Anda para aqui, daqui é que se vê bem."
Não sei o que ele queria ver, a não ser a largueza da mata em redor, as clareiras de capim ressequido. Mas ele era assim: o cabelo loiro quase rapado, os olhos azuis que cintilavam, a boca fina num ricto de desafio e basófia. Ele adorava aquilo, adorava a jactância, o combate, a dureza e a glória da guerra. Era homem de poucas palavras e riso escarninho, que imprimia aos seus soldados um ritmo infernal e uma mística arrogante que apelava à mais masculina das auto-estimas, quase ascético de hábitos, despojado nas exigências diárias, admirador dos grandes feitos. Judeu beirão, idolatrava o general Moshe Dayan e a sua condução fulgurante da guerra dos Seis Dias: costumava encher o peito de ar, arrotar a cerveja e gargalhar tapando um olho com a mão espalmada: "O zarolho! O zarolho é que os topava a todos!"
Porque não ir também para cima da camioneta, juntar-me ao espectáculo? A tensão, o cansaço e o tédio das longas jornadas militares pedem por vezes gestos simbólicos que dêm algum sentido e alento ao que fazemos, nem que sejam de pura encenação. Não há nada de heróico em desatascar uma camioneta presa na lama, mas um pouco de basófia não faz mal a ninguém. Oferecer o peito às balas de algum atirador que andasse por ali era coisa que o Gil adorava fazer.
Mas de repente, resolvi não subir. Estava calor, e a água aquece nos cantis. Decidi que era mais interessante ir mergulhar o meu na corrente do Nango, de água leitosa mas fresca – uma espécie de frappé de campanha. E foi assim que retirei a G3 da caixa da Berliet e me fui agachar na orla do rio, dez metros ao lado.
Tínhamos saído de manhã de Nambude, dois pelotões sob o comando do Gil, como de costume ao raiar da aurora. A coluna mensal de reabastecimento vinha de Mocímboa da Praia, ofegando penosamente pela picada, a passo de homem, seguindo a vanguarda apeada de "picadores" em busca de minas. Como de costume, limparíamos a picada de eventuais engenhos, encontrá-la-íamos a meio do caminho e regressariamos com ela a Nambude, já montados nos carros. Era a forma de se abreviar uma jornada de apenas 40 quilómetros mas que, naquele caminho aberto na mata, por vezes nada mais que rodados lamacentos, chegava a durar um dia inteiro.
O probema era que no ponto de encontro – a passagem do Nango – a placa de cimento que fazia de ponte havia sido destruída dias antes pela guerrilha. Dele restavam apenas pedaços de cimento e ferros retorcidos espalhados na margem. A única forma de atravessar a corrente era a vau. E a primeira Berliet – a mais pesada, equipada como "rebenta-minas" – não conseguiu balanço suficiente e ficou presa à saída do rio. Quando encontrámos a coluna, o focinho da Berliet emergia, desconsoladoramente apontado para cima. Era necessário juntarem-se quantos homens fossem precisos para a empurrar dali para fora e permitir a passagem do resto dos carros – provavelmente, à custa de manobras semelhantes. Tínhamos ali para umas boas horas.
Não me lembro que que pensava enquanto, acocorado junto ao rio, segurava maquinalmente a correia do cantil mergulhado na corrente. Mas lembro-me daqueles segundos, gravados em imagens fortes como de um filme visto ontem: o rugido do motor da Berliet sobrepondo-se aos gritos de comando e incitamento, e ao raspar da roda que gira no esforço de se libertar. E, subitamente, o estrondo seco, cavo, atordoante, e a escuridão de onde chovem pedras no ar turvo de poeira. Ponho-me de pé num salto. Atrás de mim está um corpo caído. Não vejo nada, há um ou dois segundos de silêncio logo cortado por gritos e gemidos, rezas, berros lancinantes de dor, pragas de raiva e espanto.

Depois, o filme esfuma-se. Tenho apenas a vaga lembrança de errar por um cenário medonho de corpos da cor da terra, caídos um pouco por todo o lado em posições grotescas, onde o sangue põe manchas avermelhadas, espalhados em torno da Berliet ainda mais adornada e com a roda traseira destruída. Há outras figuras que erram por ali como espectros, tentado perceber o que se passa e lidar com um mundo que subitamente explodiu à nossa volta naquele modorrento início de tarde africana. A mina estava lá, colocada fundo, possivelmente tapada com um pedaço de cimento, e ninguém a detectara.
E então tudo o mais se mistura, e das horas seguintes colho momentos desgarrados: o Silva, olhando-me com ar grave e olhos esbugalhados: "Também você, alferes?" Pela cara eu sentia escorrer o sangue quente que me empapava todo – um qualquer estilhaço ou pedra levara-me uma tira de couro cabeludo. E ele a dizer-me: "O Diabo caçou-nos. Leve a malta daqui para fora, que ele anda por aí à solta." E também o Caetano, caído na picada, agarrando-me num braço: "Ai meu alferes, caminhei tanto para vir morrer neste cu do mundo." Eu dizia-lhe: "Não morres nada", olhando-lhe a cara transformada numa massa em carne viva. Não morreu mas ficou cego de um olho. Tinha vinte anos.
Tínhamos todos vinte anos… Como o Gil. Encontrámos o que restava dele a uns vinte metros dali, no meio do capim, desfeito pelo sopro da mina que o apanhou em cheio no alto da caixa da Berliet.
Lembro-me também da chegada dos helicópteros, precedida de uma ou duas passagens de caças Fiat metralhando as redondezas para desencorajar quaisquer aproveitamentos da nossa fragilidade. Foram precisos quatro "helis" para levar os treze feridos graves. E de como me vieram dizer que o piloto estava relutante em levar os mortos para Mueda, deixando-nos com quatro cadáveres durante o resto do dia, e o mais que durasse a jornada naquele Fevereiro africano. Não sei se era verdade ou não e na altura pouco me interessou saber. E quando me pendurei na cabine do Alouette, com a cabeça entrapada, o camuflado e a cara cobertos do sangue e da merda de todas as guerras, eu não estava a brincar quando berrei que ele ou levava os mortos ou comia uma bazucada no helicóptero que já não saía mais dali. Apesar do meu aspecto, não acredito que me tivesse levado a sério. Mas claro que levou os mortos, mais os feridos, e até nos levaria a nós e às camionetas se pudesse. O português tem bom feitio, quando lhe falam ao coração.
Morto o Gil, era eu quem ficava a comandar a força de Nambude. E então eu vi sessenta homens que me olhavam, alucinados pela tragédia, pela morte que a maioria de nós cheirava pela primeira vez, assim de chofre, num caos de pó, sangue e tripas, e percebi que tinha de os levar de volta para casa, custasse o que custasse. Era eu quem tinha que os tirar dali – eu, que só pedia em silêncio que alguém dali me tirasse.
Então passámos a noite ali mesmo, sob um céu de estarrecer, ouvindo os ruídos da mata, o restolhar dos répteis, o piar dos pássaros nocturnos, o longínquo gargalhar de hienas e o bater do coração no peito. Ninguém deve ter pregado olho. E no dia seguinte, eu puxei-os pela picada fora como a um cortejo de danados. Não o teria feito se eles não me tivessem empurrado a mim, se não me dessem a mim mais força do que a que eu lhes poderia ter dado. Todos nós éramos sobreviventes e todos nós cavalgámos a coluna de volta a Nambude como um cortejo fúnebre, mas também como uma marcha para a vida. Se não fosse eu seria outro, e eles empurraram-me, a mim, que avançava de tronco nu junto aos detectores de minas, a espingarda ao ombro, bebendo goles de cerveja quente e pisando os trilhos suspeitos com louco desdém. Mas, nesse dia, eu sabia que era imortal.
O que me levara, naquele segundo, a retirar a G3 do alto da caixa da Berliet e a desistir de subir para a morte? Naquelas horas, o que terá colocado cada um de nós no lugar onde estava, dando a cada um sortes diferentes? O destino? O acaso? Não sei. Não sei o que existe por aí a comandar estas coisas. Talvez o Silva tivesse razão, e o Diabo andasse por ali à solta.
E se hoje recordo os vivos que nessas e noutras horas me ensinaram a coragem e a dignidade de viver, recordo sobretudo os que tanto caminharam para irem morrer na margem de um riacho leitoso naquele recanto perdido, ressequido e tórrido do norte moçambicano, longe de tudo, numa quente tarde africana igual a tantas outras.
Nunca os esquecerei.
(Texto publicado num livro sobre o Batalhão de Caçadores 3868)
domingo, 8 de Novembro de 2009
Para assinalar a data
Apesar de tudo, foi uma surpresa. Naqueles dias de 1989, em que os acontecimentos aceleravam , ainda estávamos muito viciados na imutabilidade das coisas. Há 40 anos que as fronteiras não mudavam, que nada de essencial mudava. Tinha havido o Solidariedade polaco, o Papa igualmente, as Malvinas entre dois países com McDonald's, haveria a Checoslováquia de veludo, eu sei lá. Estava tudo a desabar. Mas apesar de sabermos isso, não queríamos acreditar que o Mundo tal como o conhecíamos ia acabar, e que afinal aquele muro temeroso era tão fininho.
Ninguém acreditava e, vai-se a ver agora, ninguém queria. Nem a Inglaterra, nem a França. Toda a gente tinha medo de uma Alemanha reunificada, de "um colosso de 80 milhões de habitantes," como se repetia na altura em voz trémula - ainda por cima, 80 milhões de alemães, santo Deus... Era a memória histórica do monstro.
Extraordinariamente, onde parecia haver menos medo dele era nas paragens que mais tinham sofrido com a besta, nessa Rússia onde Gorbachev assistia impávido ao desmoronar do dominó leste-europeu, ao dissolver do cordão sanitário erguido do Báltico ao Adriático para conter de uma vez por todas a agressão capitalista. Não se sabia bem na altura, mas era por não ter escolha.
A URSS era um gigante com pés de barro, estava falida e não podia sustentar mais aqueles regimes. Nem a ela própria, e à sua suposta super-potência. Era um bluff. Por essa altura lembro-me de falar com Victor Cunha Rego depois de ele ter feito parte da comitiva de Mário Soares numa visita à URSS. Vinha a cacarejar no seu riso inigualável: "Ó pá, andámos nós com medo daqueles gajos durante estes anos todos...Aquilo está tudo atado por arames. Se nos tivessem invadido, os tanques deles paravam ao fim de dez quilómetros."
Seja como for, nesses dias andávamos angustiados, percebendo que a História se estava a fazer e com medo de não saber acompanhá-la. Nesse dia, há vinte anos, percebemos que ela tivera um momento decisivo. Só houve um dia parecido doze anos depois, a 11 de Setembro de 2001. Num mundo já muito diferente do que era em 1989.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Mais memórias de um Muro
Ilha ocidental num mar comunista, rodeada de muro por todos os lados, privada de hinterland, Berlim Ocidental era uma cidade artificial, artificialmente mantida para figurar como farol, ou como montra do way of life ocidental. Era como um doente todo embonecado e ligado a uma máquina, recebendo os alimentos através de um tubo - ou de vários, para ser mais preciso.E para evacuar era também um problema. Entre outras manigâncias arranjadas ao longo dos tempos, vigorava um acordo Leste-Oeste mediante o qual Berlim Ocidental depositava o seu lixo em território da RDA, mediante um pagamento. Como ao fim de um certo tempo se verificou que a quantidade máxima de lixo autorizada pelo acordo não era atingida, chegou a pedir-se à população que produzisse mais. Era inconcebível que os comunistas não levassem com todo o lixo que eram pagos para receber.
Os estrangeiros tinham mais facilidade em visitar o lado oriental do que os alemães. Faziam-nos recomendações como se fôssemos entrar num jardim zoológico: “Ajam normalmente. Não fiquem a olhar demasiado para as pessoas, elas não gostam de se sentir assim observadas.” Pouco faltava para nos dizerem que não lhes déssemos de comer.
Podia passar-se a pé, no Checkpoint Charlie, ou fazendo uma estranha viagem de metropolitano. Apanhava-se o S-Bahn (rede operada pela RDA) em Friedrichtrasse, por exemplo, e saía-se na estação seguinte, já do lado de lá. Havia, em vez de bilheteiras, um posto fronteiriço. Obtinha-se um visto de 24 horas e trocava-se obrigatoriamente uma determinada quantia de marcos ocidentais por igual montante de marcos da RDA (um câmbio de 1 para 1 absolutamente artificial, já que a moeda oriental de nada valia do lado de cá).
Em poucos minutos e poucos metros, era uma viagem entre dois mundos, separados por um muro. E uma viagem no tempo, também. Saía-se de um frenesi urbano cheio de luzes, lojas, Mercedes e vida, e desembarcava-se no que parecia ser uma cidade parada em qualquer tempo passado. Não era só o cinzentismo das ruas, a ausência de néons e de publicidade em geral, as escassas lojas género capelista de bairro, os carros raros, antiquados e mal-cheirosos, as roupas de modelos que faziam lembrar os anos 40. Era algo mais fundo e entranhado nas pessoas, no seu ritmo de vida, nas suas relações. Comparada com o lado ocidental, Berlim-Leste era uma cidade provinciana, onde as pessoas não sorriam nem paravam na rua a conversar (estávamos na Alemanha, afinal de contas), mas onde as empregadas do café Linden Corso, na Unter den Linden, ou no restaurante giratório na grande bola da torre de telecomunicações em Alexanderplatz, vestidas de batas com rendinhas e sapatos antiquados, ainda eram capazes de nos desejar guten appetit. E os guardanapos eram de pano.
Praticamente, não havia onde gastar os marcos orientais. Regressar ao lado de cá proporcionava uma sensação de alívio, um pouco estranha. Eu pensava que nem tudo poderia ser mau do lado de lá - afinal de contas eram milhões de alemães que assim viviam, sem Mercedes, néons, ou pizzas. A liberdade? A liberdade é mais premente para quem a conhece, e a RDA, na altura, já levava uma geração de vida.
Mas o problema era que os alemães de Leste, e sobretudo os berlinenses, viviam paredes-meias com o "mundo livre". Se não o viam directamente, ouviam-no, recebiam os seus canais de TV, as suas imagens, os seus ecos. Ideologicamente, o capitalismo podia ter má fama no mundo do "socialismo real", mas o seu brilho e glamour não podiam deixar de causar efeito.
Uns anos mais tarde, percebi melhor como a generalidade das pessoas se está basicamente nas tintas para os grandes princípios, e quer é viver melhor seja onde for. Há vinte anos, os alemães do lado de lá saltaram o mundo em busca de bananas, que a maioria nunca tinha visto. Talvez a liberdade seja apenas isso. Mas lembro-me também de ler numa revista, naqueles dias de brasa de 1989, o desabafo de uma alemã-oriental: "Um dia acordei e pensei: tenho 40 anos, sou arquitecta, e nunca vi Veneza." Nem só de bananas vive o homem.
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Para o JJ Amarante
Memórias

O post anterior, e outros que já aqui coloquei, nada tem a ver com o presente, com a actualidade. As minhas janelas não estão abertas apenas para o mundo que vou vendo e sentindo, mas também para o que já vi e senti. Delas vejo mais do que a paisagem que me rodeia: vejo-me a mim como fui, onde fui, e o que fui. Nós não somos apenas o tempo que passa, somos tudo o que vivemos.
Estas histórias de mim e de coisas que vi e senti não estão escritas como as escreveria na altura. Sobre parte delas eu escrevi à época, com intuitos, ângulos e finalidades diferentes de hoje. O que sobreviveu de tudo isso serve-me hoje como se de meros apontamentos se tratasse. O que eu quero é recriar a minha memória desses lugares, gentes e sentimentos que tive, relendo o passado, olhando-o de uma distância às vezes já grande. Muitas das coisas de que falo já nem sequer existem, ou, se existem, são já muito diferentes. Não importa: elas existem na memória. No fundo, é onde tudo existe para nós.


